O Cipó
Em 11 de abril de 2016 | 0 Comentários

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O CIPÓ
O vento vem trazendo em suas ondas uma semente de cipó, que, ao aproximar-se da canjarana, diz-lhe:
– Por favor, deixe-me morar em seus galhos.
–  Meu dever é sustentar os galhos e as folhas; não tenho como atender seu pedido.
–  Oh, não faça isso, o vento me levará para o meio dos espinhos ou me lançará nas rochas, e lá morrerei.
–  Realmente não posso ajudá-la; já vivo em pequeno espaço na mata.
–  Por favor, me ajude. Não me deixe morrer. Não terei como me alimentar nem onde viver.
–  Sei de suas dificuldades, mas a sobrevivência está difícil para todos.
–  Olhe, eu poderei cobri-la com um manto verde e lhe darei flores grandes e belas que você nunca teve.
–  Verdade?
–  Sim, você ficará ainda mais bela, como jamais imaginou…
A árvore, já sonhando com sua futura beleza e com os comentários elogiosos que provocará no meio do arvoredo, aceita enfim o cipó, que germina a seu pé. Impulsionado pela luz do sol, começa a subir pelo tronco. A canjarana, todavia, por ser muito alta, não se preocupa.
Quando ele galga a metade do tronco, lança mais duas raízes do outro lado da árvore, quase cercando-a. As duas raízes se transformam em outros talos de cipó, que enlaçam o tronco e sobem rapidamente.
Os diversos talos, em pouco tempo, atingem a copa, porém a árvore ainda não se preocupa: tem muitos galhos.
O cipó lança mais raízes em torno dela, envolvendo-a totalmente. Das raízes brota uma infinidade de talos, que, aproveitando as chuvas, ganham altura até cobrir os galhos da copa. A canjarana nem assim se inquieta: os talos do cipó são finos e frágeis, enquanto seu tronco e galhos são fortes.        Os talos avançam quase que imperceptivelmente. Serpenteiam a árvore, dominando os galhos e reinando sobre a copa. No entanto a árvore continua sonhando que eles darão belas e abundantes flores. Espera deles, no mínimo, gratidão.
Os talos cobrem todas as folhas, de tal modo que ela tem dificuldade para fazer a fotossíntese. Está abafada. Ainda assim não se aflige: suas raízes são mais profundas que as do cipó.
Começa o verão, com suas chuvas e o calor. O cipó readquire energia e seus talos se alongam como serpentes, enrodilhando os galhos. Lança sua pujante folhagem por cima das folhas da canjarana, sugando a água da chuva e a energia do sol.
A árvore fica asfixiada, não consegue fazer a fotossíntese, mas ainda sonha com as belas flores que hão de vir.
Em pouco tempo definha. Transforma-se num esqueleto. O cipó verdeja, fica florido e reina sobre ela.

cipo

Galdino Cardin é poeta, escritor e jurista.

Possui um projeto de poesias para que as pessoas leiam gratuitamente: Coletâneas de Ciência e Poesia, Poesias Líricas, Poesias Sociais e Místicas disponíveis no site da Editora Miraluz.

Escreveu livros de ficções (Sentinelas do Horizonte e Maré Baixa) e obras jurídicas.

Recentemente lançou o livro que libertaria o Brasil, se o povo conhecesse: “Recall de Mandato, o remédio que salva a democracia.”. É a possibilidade de, com base nos princípios constitucionais  da soberania popular e da participação democrática – que estão acima da lei – por meio das urnas, o povo revogar o mandato da autoridade incompetente, aética ou que não tenha correspondido às suas expectativas. Pela urna elege, pela urna deselege.

Mas, ele procura compreender a linguagem da natureza, que para ele é a mais profunda de todas as linguagens. Silenciosa, diz mais do que a verbalizada. Demonstrou isto nas obras: Flor do AbismoPedregulhoOs Mistérios do Condor, dentre outras. Ele captou esta linguagem também em fábulas e em poesias, e que nos servem para reflexão neste momento de crise política e econômica.

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